Airton Nunes Dias
As-Pirações:
...O TRUNFO...
.
...IRREVERENTE...
...DO DESATINO...
Índice:
01- Simples esporte.........................................................................................................
02- Rebaixamento...........................................................................................................
03- Faz de conta..............................................................................................................
04- Á espera da chave.....................................................................................................
05- Exemplo.....................................................................................................................
06- Alfredo........................................................................................................................
07- Divã............................................................................................................................
08- Banda de dois............................................................................................................
09- Formigueiro................................................................................................................
10- Degrau energético.....................................................................................................
11- Emancipação sutil......................................................................................................
12- Geração de estranhos...............................................................................................
13- Amostra grátis............................................................................................................
14- Pão duro....................................................................................................................
15- Posse desinteressada................................................................................................
16- O narcisismo intelectual.............................................................................................
17- Farol translúcido........................................................................................................
18- Professor indiferente..................................................................................................
19- Piscar de olhos..........................................................................................................
20- Racionamento............................................................................................................
21- Razão indolente.........................................................................................................
22- O badalar da consciência..........................................................................................
23- A alienação do dom...................................................................................................
24- Barriga cheia..............................................................................................................
25- Vagas no vagão.........................................................................................................
26- Bordel ramalhete........................................................................................................
27- Antídoto......................................................................................................................
28- Aluado........................................................................................................................
29- Depreciativos.............................................................................................................
30- Arrebol com chuvisco.................................................................................................
31- Possibilidades............................................................................................................
32- Procura......................................................................................................................
33- Dona de casa.............................................................................................................
34- Longe da praticidade.................................................................................................
35- Os paliativos da limpeza............................................................................................
36- Os rumores do rufar...................................................................................................
37- Presença incondicional..............................................................................................
38- Ressaca pertinente....................................................................................................
01-Simples esporte:
Quem consegue caçar mais?
Seguindo o instinto das futuras provisões
Existem garoupas, micos-leão e araras
Garças, onças e as tartarugas marinhas
A armadilha está armada no currículo
Nas grades da conta bancária
Para muitos a caçada é pela sobrevivência
Em outros casos é um simples esporte...
Inúmeras espécies são mantidas vivas
Alimentadas com bastante juros
Do outro lado a extinção monetária
Já que a fome não permite preservação
02-Rebaixamento:
As em branco
Um trunfo, um triunfo
Embaralhado por mágicos
Uma carta fora do baralho
Um escanteio vindo do espaço
Um vôleio terrestre
Uma furada, que embaraço...
O próprio time atrapalha a jogada!
03-Faz de Conta:
Querem que eu suba em um pé de feijão
Descendo pelas tranças de Rapunzel
Para atirar tomates na Cigarra
Plantando bem mais do que preciso
Pedem que eu esqueça as casas precárias
Ostentando um forte de tijolos
Que eu siga as migalhas de pão
Ao encontro de um “x” para cavar
Apostam que eu seja um coelho apressado
Que jogue pôquer com a rainha
Vestido notavelmente!
Com as roupas que só os inteligentes enxergam
Esperam que eu seja um príncipe encantado
Que cultive um pé de maças envenenadas
Que arranque mil corações com esse engodo
Derretendo muitas brancas de neve...
04-À espera da chave:
O tempo que se arrastava agora voa
Os minutos se aproximam das obrigações
Sigo deitado sob a preguiça do intervalo
Digerindo o almoço do estômago
Os olhos descansam um cochilo alarmado
Na expectativa dos afazeres da tarde
Atados pelo cansaço da manha!
O trabalho logo chama...
O despertador dispara urgente
Um café se faz necessário
A mão leva água aos olhos
Os bocejos são descartados
O tempo apura os passos
Transeuntes se acotovelam
Todos rumando pro batente
Seguindo no fluxo apressado
O patrão acabou se atrasando
O tempo que voava volta a se arrastar
Exemplo que se repete ao redor
Muitos estão à espera da chave...
05-Exemplo:
O pai bebe como um fracassado
Maltrata seus familiares sem demonstrar remorso
Dorme ao redor de garrafas de cachaça
Escora-se na aposentadoria que recebe
Seu filho mais velho está ansioso
Pretende mostrar que é diferente
Quer resgatar a dignidade da família
Apostando no retorno da faculdade
Seus sonhos acabam custando caro
O jovem não dispõe de tanto
Antigos pesadelos voltam a atormentá-lo:
Abraços bruscos e comentários embriagados
O rapaz decidiu aceitar o amparo paterno
Um gole de conforto para suas angustias
Muitas garrafas surtiram pouco efeito
A impotência ainda estava em seu peito
O repúdio da juventude foi se apaziguando
Se embriagar parecia uma boa pedida!
A aposentadoria do pai invalidava dois fracassos
O álcool higienizava suas decepções
06-Alfredo:
Sua carteira de trabalho mais parece uma lista de classificados
Contém referências de tudo que é tipo de trabalho:
Um ano e meio como gerente em uma empresa
Seis meses como diretor em outra...
Tudo parece indiferente em seu modo de viver
As chances que tinha desperdiçou com faltas
Os diplomas pagos foram inutilizados
Ninguém lhe dá credibilidade alguma
Seu pai é muito influente na região
Mas o filho não serve nem de escoro para papel
O que Alf espera da vida afinal?
Nunca age como alguém de sua idade
Ele quer comer cachorro-quente nas lanchonetes
Com uma fome digna de antidoping...
Se diverte até nas segundas-feiras
Sempre bebendo pelos postos da cidade
Festas são organizadas seguidamente em sua casa
O som alto importuna os visinhos
Alf faz questão de inventar mil desculpas para a polícia
As reclamações costumam seguir no decorrer da noite...
Quanto mais o pai progredia nos negócios
Mais “agradáveis” se tornavam seus vícios noturnos
Um filho mimado que nunca soube ver as horas direito
As drogas lhe fizeram embaralhar também os dias da semana
Com o tempo Alf foi envelhecendo
O pai já se recusava a pagar seu aluguel
As olheiras começavam a impor uma maior responsabilidade
Por mais de quinze anos ele acordava no final da tarde
Começou a trabalhar como gerente em um bingo
Com o tempo se tornou um agiota conhecido
Largou o emprego para se dedicar plenamente
Enfim, encontrou uma vocação com seu aprendizado
07-Divã:
Seus olhos azuis enxergam o horizonte
A visão de Clarice transcende a personalidade
Distanciando a consciência dos próprios apreços
O entendimento precoce é uma base trêmula...
A bela face não disfarça as mágoas
Triste e deitada no divã
Minha atenção não se deteve aos seus problemas
O mais sublime dos complexos!
A expectativa empurrou seus dezoito anos
Na tentativa de encontrar a felicidade aos esbarrões
Cresceu se protegendo das conseqüências
Meus serviços, em parte, ajudaram
Em três anos de tratamento atencioso
Vi seu aspecto emocional melhorar muito
Vi também de seu corpo transbordar uma mulher
Em gestos joviais e singelos
Meu envelhecido coração se despedaça em vão
O sentimento que ela me tem é afetivo
A presença de seus avós lhe fez muita falta
Clarice, Clarice, Clarice
Pensamentos impuros rodeiam sua imagem!
Uma paixão arrebatada espreita pelos cantos destes óculos
O teu corpo suspira nos meus sonhos
Onde me deito junto a ti no divã...
08-Banda de Dois:
Eu procuro uma garota problemática
Que não seja educada por novelas
Nem resuma os relacionamentos com revistas
Que busque cumplicidade nos defeitos
Finalmente eu encontrei que desejo
Uma jovem criada pelo avô materno
Serenamente perturbada por ser órfã
Cultivada entre discos de Rock and Roll
Ela comprou uma guitarra na minha loja
Segurei suas mãos ensinando algumas notas
Cantamos juntos um refrão do The Doors
Numa sintonia que nos fez flertar!
Comecei a lhe dar aulas particulares
No tornamos bem mais do que amigos
Pintamos o sete com nossa amizade colorida
Formamos uma entrosada banda de dois...
09-Formigueiro:
Por quantas pessoas eu passo sem cumprimentar
Ensimesmado como uma formiga operária
Cruzo por tantos sujeitos, muitas vezes, sem nunca perceber!
Vários passam por mim sem sequer me notar
O que faço dento desse formigueiro gigante?
Onde todos vivem juntos, e, ao mesmo, tempo separados
Onde avistamos nossos semelhantes e olhamos para o lado
Quantos amigos em potencial já morrem isolados?
10-Degrau energético:
Raios incineram as árvores frondosas
As chamas se alastram pela floresta
Formando uma clareira que iça fumaça
As cinzas em circulo deixam resquícios
Muitas brasas são aproveitadas acessas
A curiosidade primitiva quer prová-las
O calor não pode ser levado à boca
Só a queimadura das mãos parece ter gosto
O fogo também surge nas montanhas
Vulcões em atividade espreitam
Incendiando a vegetação das rochas
Uma verdadeira mina de magma escaldante
Fogueiras aparecem junto aos pântanos
Labaredas são lançadas sem tubo de ensaio
Muitos lamaçais abrigam laboratórios naturais
O fogo-fátuo tem sua fórmula espontânea
Selvagens se arriscavam ao redor da lava
Corriam ao encontro das tormentas
Aproveitavam a manifestação da química primitiva
Todos em busca do fenômeno inovador
O frio podia ser combatido com calor
A escuridão cedia à luz translúcida
Os alimentos davam gosto à água fervente
Um degrau energético estava sendo escalado
11-Emancipação sutil:
Quem sou eu que tento controlar meu eu?
Alguém consegue não pensar em nada?
O pensamento é volátil!
Parece ter vontade própria
Sem perceber nos flagramos ponderando problemas
Quando o que mais queremos é tranqüilidade
Tomamos conta que agimos sem propósito
Como se chamássemos a atenção de nós mesmos
A consciência realmente nos pertence?
Sorrateira em sua liberdade
Da memória ao pensamento
Numa emancipação sutil
O inconsciente manifesta suas sugestões
Tece lembranças em torno do que vivemos
Uma voz interior se pronuncia sem ser consultada
Como se possuísse existência subjacente
12-Geração de estranhos:
Não queremos rodar pelas ruas
Nem ligar o carro e vagar pela agitação
Não é necessário ocupar o transito!
Nem acirrar o comércio de petróleo
Preferimos alpinismo e pedalada
Gostamos esportes radicais
Desbravamos a natureza
Plantamos árvores
Separamos o lixo orgânico
Economizamos água
Semeamos legumes
Não comemos carne
Somos a geração de estranhos!
Existimos entre poucos
Somos desgarrados das tendências
Assistimos documentários
Carregamos livros de bolso
Organizamos abaixo-assinados
Julgamos nosso voto
Discutimos política
Prestamos voluntariado
Adotamos crianças
Educamos nossos filhos
Escrevemos poesias
Doamos sangue
Somos a geração de estranhos!
13-Amostra grátis:
Ela se mostra na webcam
Sua fantasia é ser assistida
Costuma se exibir na rede
Revestida em contidos modelitos
Seu corpo é esculpido
Se balançando nas ondas da internet
Uma pequena amostra grátis
Todos pagam para ver mais
“Dançando” para o mundo inteiro
Ela desconcentra os Indianos
Esquenta o sangue dos Russos
Acalma os Iraquianos...
Suas amigas competem por posições
Qual delas ficará em primeiro?
Aquela que se atrever mais
Todas querem subir no pódium...
14-Pão duro:
Gastar dinheiro é a sina da maioria
Daqueles que vagam pelas vitrines
Dos que bebem metade do dia de trabalho
Muitos só se contentam com dívidas
Sou sovina com orgulho!
Não me privo do necessário
Apenas driblo as chances de gastar
Muitas são as oportunidades
Meu carro é do ano
Mas minhas roupas estão remendadas
A costureira e o sapateiro são meus amigos
Não cultivo nenhum desperdício
As pessoas se vislumbram no supermercado
Minha horta é mais farta!
Não me sirvo nos restaurantes caros
Sou um ótimo cozinheiro
Minhas moedas se tornam notas novamente
Entendo de economia sem ter me formado
Tiro proveito dos juros em aplicações monetárias
A Bolsa de Valores é o tesouro por trás do arco-íris
15-Posse desinteressada:
Os laboratórios foram destruídos
Os livros sumiram das bibliotecas
Com eles nosso modo de vida
A eletricidade e a gasolina acabaram
Os cientistas partiram pra outra
Os professores não existem mais
Os matemáticos se foram
Os políticos acabaram extintos
Onde estão as escoras da nossa ignorância?
Aborígines espaciais!
Ilusionistas desta realidade
Um novo ritual não fora compartilhado...
No mais tudo que resta é o mesmo
Sem o sentimento de posse desinteressada
Fomos destituídos das exceções
Um marco confuso na ânsia das inovações...
Como construir um laboratório no quintal de casa?
Utilizando os elementos que existem ao alcance
Como catalogar leis e verdades eternas?
Revolvendo novas revelações
16-O narcisismo intelectual:
Ele quer ser um sofista
Decora filmes e enciclopédias
Documentários e artigos
Livros e mais livros
Quer se expressar como os parágrafos
Deseja difundir a espiritualidade
Movido por sonhos obcecados
Pretende entender o cosmo
Ele se considera o Messias
Portador do resquício da esperança
As riquezas que se acumulam não bastam
O tédio torna o sangue frio
O príncipe órfão impõe seu estandarte
Demais regências estão acuadas
Toleram tamanha genialidade
Mesmo que a perversidade a corrompa
Ele acredita ter super-poderes
Os videogames atenderam sua finalidade
Surge um herói com insanas justificativas
Um genocída a procura dos vilões
Novas profecias serão impostas
O contemporâneo lhe parece atrasado
Lunáticos espiam pela venda da ignorância
Montando protótipos de realizações
17-Farol translúcido:
Sinta o eco dos momentos
Eles estão interligados aos sentidos
Os sentimentos luzem a cada instante
No reflexo dos raios de sol
Busque o brilho que lhe completa
Não procure ofuscar-se em um clarão
Valorize seu feixe de luz
Encontre nele o abrigo à escuridão
Na luminescência do luar
As luzes se mantêm acessas
Sobre o encontro dos corpos
O orvalho cintila junto ao suor
A solidão tateia nas sombras
Distante da vivacidade luminosa
Em busca de um sentido ao sentimento
Ao invés de dar sentimento ao sentido
18-Professor indiferente:
Os andarilhos percorrem a cidade
Vagando pelo direito de ir e vir
Sequer permanecem nos abrigos
O alcoolismo os acolhe
A embriaguês ganha destaque
Praças servem de clube
Confraternizações em plena calçada...
É a sarjeta aproximando os amigos
O cidadão se sente alarmado
Com o que parece ser o princípio da desordem
A Polícia e o Estado são impotentes
Não podem se impor ao direito de ir e vir
Muitos decidem refugiar seus vícios
Enraizados nos viadutos das grandes cidades
Situação que decorre de uma constitucionalidade
Um engano contra a segurança pública
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Se a ditadura foi um regente cruel
A democracia é um professor indiferente
Alguns alunos sequer prestam atenção nas aulas
Atrapalhando o desenvolvimento dos demais
Um educador caduco que não quer se aperfeiçoar
Surdo demais para se incomodar com a bagunça
Os bons alunos geralmente são autodidatas
Parte dos demais segue péssimas influências...
19-Piscar de olhos:
O espelho estilhaça seu reflexo
Em fragmentos multiformes
Conjunto de inúmeras realidades
Vagando no lapso da consciência
O olhar não converge a totalidade
Preso pela deficiência dos sentidos
Piscadas percorrem paralelos sem notar
Nos múltiplos fluxos da consciência
Passado, presente, futuro
Antes, agora, depois
Os instantes parecem confusos
Errantes da real experiência...
Na vibração de cada ação
Os momentos se mostram instantâneos
A essência se dispersa das restrições!
Distante dos paradigmas do tempo
20-Racionamento:
Ovo e arroz, um banquete!
Comer bem é não passar fome
Haja Cristo...
Quando o prato está bem servido
Algumas hortas mais parecem túmulos
A seca sepulta as sementes plantadas
Erguida na cabeça, pende a lata d’água
Um bálsamo escorre junto aos olhos...
Pelo esforço, beber ou alimentar a terra?
A represa da consciência surge
Na fartura do oásis, um lapso árido!
Goles forçosos, a realidade suspira...
A sede impõe a futura fome
Num sentimento inexpressivo
De civilização desgarrada
De tribo desamparada!
Os olhos estancam a culpa
Outras sementes saboreiam a água
Brincando e sorrindo ao redor da lata
Como se do pai surgisse uma fonte
21-Razão marginal:
Pare de ler!
Se renda as idéias imediatas
Encontre a razão passageira
Se amotine na igualdade
É preciso impor moralmente o respeito
Citar acontecimentos que impressionem
Dispor de uma imaginação articulada
Inventando experiências mirabolantes
As mentiras contam vantagens
Na falsa vivência dos fatos
Distorcidos a favor do conceito
O mérito não vem do conhecimento
Não valorize o aprendizado!
Apenas siga a tendência
Sente-se no balcão de um bar
Faça amizades para competir
Desvie os comentários alheios
Sirva o copo e sorva a certeza
Imponha a voz ao novato
Mostre-se superior nos goles
22-O badalar de Cristo:
Proteção aos filhos
Na epopéia de um sacrifício
Os pregos ainda escorrem sangue
Firmados em nossa consciência
Pedidos são feitos no leito
Agradecimentos também
Na chama das velas
Um eterno velório
O chamado se alastra
A cera mantém o culto
Na luminescência do luto
Um instinto oculto
Imagem e semelhança
Consideração solene
No aspecto da morte
O pilar do comprometimento
No eco das horas
O sino badala os séculos
Na constante menção dos fatos
A lembrança de um assassinato...
23-A alienação do dom:
Sob a observação do cosmo
A vida humana é um reality show aos Deuses
Exibido no topo da cadeia evolutiva
Somos analisados no tubo de ensaio
Todos são filmados a espera do efeito
Uma experiência de raríssimos sucessos
Destinados a nascer, procriar e morrer
As câmeras assistem as divergências...
Fora dos closes da audiência
Inúmeros feitos perecem banalizados
A maioria do conhecimento parece em vão
Disperso na mais remota alienação
O senso comum é uma base
Um tripé para ajustar a razão
Foca apenas cenas de alcance imediato
Superficiais para todos poderem interagir
Poucos decidem enfrentar o anonimato
Seguindo por um caminho sem muito ibope
Onde a personalidade encontra a certeza:
“A realização do potencial é uma utopia congênita”
24-Barriga cheia:
O trabalhador pondera exemplos negativos
Como se a miséria espreitasse seu esforço
A proximidade com o pior lhe preocupa
Existem famílias em piores situações
No conformismo da miséria alheia
Feio é chorar de barriga cheia
Na decadência dessa tendência
Uma nação birrenta se trata sozinha...
25-Vagas no vagão:
Eu vou buscar o trem
Aonde quer que ele vá
Correndo em passos largos
Eu vou buscar o trem
Não vou correr em vão
Penduro-me no lado de fora
Na trepidação dos trilhos
Meus pulsos estão firmes
Pego uma carona
Não preciso de acento
Contento-me em ficar de pé
O destino é a mesma estação
26-Bordel ramalhete:
O senso é sensual
Libertina, liberta sua libido!
Intensa intenção
Sua chama me chama
És tu a rosa provocante
Que se move à flor da pele
Pétalas balançam ritmadas
Eu me curvo às suas curvas
Ela possui o que me possui
No frêmito de suas formas
Um laço lascivo nos une
Meu elo é ela
27-Aluado:
A luz da lua reflete os raios de sol!
Esfera norteadora das marés
Vetor do plantio e da pesca
O solo e suas crateras provêm da terra?
A vizinha mais próxima
Testemunha do giro celeste
Futuro abrigo estelar
Um lar para causas urgentes
Companheira dos casais
Inspiração dos poetas
Um roteiro turístico ousado
Palco de impasses terrenos...
28-Antídoto:
Quem vai perder o sábado em casa?
Assistindo filmes de investigação
Daqueles onde o governo combate os bandidos
Do tipo best-seller de ação
Notícias inspiram roteiros
Os atores ensaiam as mortes
O sangue real e o fictício nos faz bocejar
A crueldade alegórica passa despercebida
Há uma amotinação na escada do cinema
As bilheterias estão esgotadas
Para assistir verdades que também são noticiadas
Tiros no hastear da bandeirada...
Entre agentes e terroristas, policiais e ladrões
O veneno mostra a atuação do antídoto
É como se o hino ecoasse durante as cenas
Um aplauso solene aos superiores fictícios...
29-Depreciativos:
Os grãos de areia gostariam passear pela praia
As gotas de água querem se banhar na cachoeira
As raízes desejam saborear os frutos das árvores
Os ventos anseiam aspirar o aroma de primavera
Mucosos, os grãos de areia formam uma charneca
Empossados, os pingos de água escorrem pelo esgoto
Torduosas, as raízes apodrecem toda uma safra!
Fumacenta, a ventania espalha o cheiro das chaminés...
30-Arrebol com chuvisco:
As nuvens claras acompanham a chuva
Brilham entre nevoas escurecidas
O sol aquece os pingos que caem
Soltando vapor com o calor do asfalto
Quem se abrigaria em um guarda-chuva?
Disposto a perder um encontro de extremos
Onde o ciclo deságua em parceria
Formando um chuveiro naturalmente morno
A natureza se mostra versátil e irreverente
Distante da monotonia do clima
Quase sempre é chuva ou sol!
Quem prefere não um arrebol com chuvisco?
31-Possibilidades
Cai no sono, mas me levantei depois da queda!
Tudo em volta parece ser suscetível a sugestão
Ainda existe uma voz interior junto comigo
Latente, ela participa das ações deste sonho
É possível voar pelas nuvens se eu quiser
Ou escalar uma montanha se assim desejar
Posso perambular por galerias subterrâneas
Ou até mesmo visitar as profundezas do oceano
Os acontecimentos estão todos ao meu controle
Tenho a impressão de que posso alcançar imaginável
Como se tomasse conta da minha própria consciência
Admirando as infinitas possibilidades da intenção
32-Procura:
Muitos querem conhecer os visinhos cósmicos
Nem que eles sejam simples formas de vida
Quem sabe lançar a diplomacia dos terráqueos
Conhecendo outras culturas milenares
Aparelhos são construídos para observar o céu
Enquanto muitos selvagens sequer possuem fogo
A fala ainda não foi descoberta por estes
Já a telepatia é comum em outros contextos
Nos confins da vida inteligente
Inúmeros seres testam seus aparatos
Uns eternamente à procura dos outros
O que esperar de uma visita repentina?
33-Dona de casa:
Seu nome é Matilda
A sombra lhe torneia os braços
Tem músculos de atleta
Como se fosse uma acrobata
Só que nunca entrou em um ginásio
Nem mesmo para limpar a quadra
Sua lida é que lhe deixa forte
Teste de resistência em três faxinas diárias
Marmanjo sente preguiça ao ver o que ela faz
Os braços arredam a cama para varrer
As varridas são precisas contra o pó
Matilda passa o rodo em seu suor
34-Longe da praticidade:
Todos fogem para a beira-mar
Em busca de um alivio da cidade
A brisa sempre traz tranqüilidade
Há uma certa nostalgia no ar
O instinto procura seu primeiro lar
Um ambiente elementar
Próximo de sua própria natureza
Resgatando os princípios da destreza
O cansaço não escolhe conforto
A fome dispensa os talheres
O fogo mostra suas utilidades primordiais
O esforço parece estar longe da praticidade
35-Paliativos da limpeza:
“Prestadores de serviço” limpam a cidade
Recolhendo as aparas da sociedade
Na busca de um auxílio nas despesas do lar
A demanda da limpeza é uma tarefa árdua!
“Funcionários” são confundidos com andarilhos
Ainda que não rasguem as sacolas das lixeiras
A informalidade discrimina a coleta das aparas
Os catadores sequer trabalham com dignidade
Os sacos de lixo são atados novamente...
Seguem concordes os paliativos da limpeza
Tapando buracos com a sujeira do tapete
Sem a devida reciclagem dos fatos
36-O rufar dos rumores:
As garotas no parapeito das sacadas
Balcões, cadeiras elevadas
O sutiã cedia em sobressalto
Entorpecidas, suas curvas acentuavam-se
Doses, olhares duplicados
As garrafas com bilhetes
Os guardanapos, as marés
O mar no rufar dos rumores...
Insinuações, convites breves
Os lábios se encontraram soluçando
Reflexos cintilam impulsos
A vontade se precipita...
A euforia leva o espírito pra passear
Os corpos estão magnetizados
Uma estrela indivisível brilha
Na energia que se entrelaça
37-Presença incondicional:
Deus é a aleatoriedade
Completude esvaziada
Preenche o todo
Desocupa o nada
É a inexistência tangível
Um horizonte próximo
É o irreal visível...
Vastidão pequena
É um silêncio barulhento
Alusão explícita
É uma irreflexão racional
Metáfora objetiva
Deus foge das explicações
Sua lógica se dispersa da ótica
Uma presença incondicional
Distante dos nossos sentidos
38-Ressaca pertinente:
Essa tensão eu não vou suportar
A água acabou, estou indo pro bar
Minha conta de luz já venceu
No final do mês quem perde sou eu
Beber pra aliviar o cansaço
Beber e lançar tudo pro espaço
Beber pra dispersar a certeza
Beber e assim dormir sobre a mesa
Se o armário está ficando vazio pra tormento
Se novamente está atrasado o meu pagamento
O pôr do sol eu não vou esperar
Em plena tarde vou me embriagar
Beber pra aliviar o cansaço
Beber e lançar tudo pro espaço
Beber pra sacudir a tristeza
Beber e assim dormir sobre a mesa
39-Rosno pra cria
Seu sobrenome não tem renome
Por isso mesmo tem que pagar pelo que come
Um prato de comida é uma dívida
Se sustentar, um compromisso!
Essa imposição apareceu ainda na infância
Quando o trabalho precoce começou
As mãos ásperas não deixam escapar o pão
Os calos provam que a refeição é de direito
Assim seus pais foram criados
Num mundo onde a própria fome ronca mais alto
Onde só o trabalho pode calar a barriga
Onde o rosno pelo esforço vale até pra cria